Com duas linhas de pesquisa e uma equipe de quatro pesquisadores, o Laboratório de Neuroimagem do Hospital Universitário Onofre Lopes (HUOL), vinculado ao Instituto do Cérebro da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (ICe/UFRN) e à rede hospitalar Ebserh, é um dos seis integrantes do Núcleo Avançado de Pesquisa e Inovação Tecnológica em Saúde (NAPS). Sob coordenação do professor e neurocientista Dráulio Barros de Araújo, o Laboratório funciona no RN desde 2009 com o propósito de avaliar os efeitos antidepressivos de substâncias psicodélicas e as bases fisiológicas desses efeitos. 

Uma de suas linhas de pesquisa tem como objetivo avaliar aspectos do funcionamento do cérebro de maneira não invasiva. “Um dos processos fundamentais da neurociência é entender o funcionamento do cérebro ao desempenhar certas tarefas”, enfatiza o coordenador do Laboratório. Nesse contexto, os pesquisadores utilizam técnicas de neuroimagem funcional para identificar características do funcionamento do cérebro.

Com atividades iniciadas em 2002 na Universidade de São Paulo (USP), em Ribeirão Preto, o Laboratório de Neuroimagem vem abordando diferentes objetos de estudo, como processos de memória, epilepsia, Acidente Vascular Cerebral (AVC), atenção, regulação da emoção e processamento de dados. Em 2009, quando se mudou para Natal, o grupo de pesquisa estabeleceu foco único no estudo das substâncias psicodélicas, especificamente a ayahuasca.

Primeiros estudos

O primeiro objetivo da pesquisa do Laboratório foi identificar as bases neurais do efeito da ayahuasca. A experiência inicial recrutou voluntários com pelo menos 15 anos de uso da substância. Vários deles relataram a reversão de quadros severos de dependência química, depressão e alcoolismo, graças ao uso da ayahuasca em suas religiões. Todos os participantes passaram por ressonância magnética, a fim de comparar os estados sem efeito da ayahuasca e após sua ingestão.

Os resultados indicaram alterações no sistema visual dos voluntários – quando sob efeito da ayahuasca, a atividade visual é indistinguível, seja de olhos abertos ou fechados. O trabalho rendeu a publicação de um artigo chamado Seeing with the eyes shut (Vendo com os olhos fechados, em tradução livre). Observou-se que a experiência visual da pessoa de olhos fechados segue idêntica à verificada quando de olhos abertos.

A partir dessas conclusões, uma segunda linha de pesquisa foi aberta, em 2008, com o objetivo de avaliar o benefício terapêutico da ayahuasca em uma patologia específica: a depressão. Agora, em vez de voluntários experientes com o uso da substância, foram selecionadas pessoas com depressão resistente ao tratamento medicamentoso e que jamais haviam experimentado substâncias psicodélicas.

A depressão refratária ou resistente ao tratamento é caracterizada pela utilização de dois ou mais antidepressivos em dose plena, sem melhoras. De acordo com o médico psiquiatra e coordenador do Programa de Residência Médica em Psiquiatria do HUOL, Emerson Arcoverde Nunes, aproximadamente um terço dos pacientes sofre com essa condição. “Essas pesquisas podem se tornar alternativas viáveis do ponto de vista logístico para esses pacientes”, afirma o especialista.

O estudo relacionado à depressão identificou melhora significativa com apenas um dia após a sessão com ayahuasca, além da manutenção dos benefícios ao longo dos 21 dias de acompanhamento do estudo. Para o professor Dráulio, a melhora rápida dos pacientes é um dos aspectos mais relevantes da pesquisa, pois todas as medicações antidepressivas convencionais demoram na ordem de 15 dias para surtir efeito. “Na psiquiatria, é importante existir tratamentos de resposta rápida, diminuindo os riscos de suicídio dos pacientes. E até existem alternativas de resposta rápida, mas que são limitadas em termos de acesso ao tratamento”, explica o cientista.

Saiba mais sobre o estudo e o trabalho do Laboratório de Neuroimagem neste link.

Foto: HUOL/UFRN