02 de Maio de 2019
"É hora de ter tempo, de abrir mão de padrão de vida por padrão de afeto", destaca psicólogo Rossandro Klinjei, ao desnudar a atual geração
[0] Comentários | Deixe seu comentário.Foi diante de uma plateia atenta, formada por pais de crianças e jovens, que o psicólogo e escritor Rossandro Klinjey defendeu suas ideias sobre as causas e consequências de uma crise que atinge a nossa juventude. Rossandro é hoje uma das maiores vozes do país quando o assunto é educação dos filhos. A convite do colégio Ciências Aplicadas, ele veio a Natal no feriado do Dia do Trabalho para proferir a palestra “Limites na educação: uma prova de amor”. Com a experiência de quem roda o Brasil, a Europa e os EUA dando palestras, Rossandro parecia conversar tête-à-tête com cada um daqueles pais e mães que estavam ali. "Pego cerca de 85 voos por mês", confessou, ao comentar a vida de palestrante.

Mas a exaustão das viagens parece paradoxalmente contribuir para a enorme simpatia do psicólogo, que não permite que os mais de cem milhões de acessos aos seus vídeos nas redes sociais, que o alçam à condição de celebridade, o tornem menos acessível ao contato pessoal. Paciente, dispôs-se por quase uma hora a tirar fotos e cumprimentar todos os presentes que quiseram aproximar-se pessoalmente no lobby do hotel, após atender a imprensa por quase uma hora.

Na palestra, alternando momentos de seriedade e bom-humor, o psicólogo deixou uma lição: é preciso cuidar dos filhos. Exercer, na prática, de forma literal, os papéis de pai e mãe. Óbvio? Pode parecer, mas não é. "A atual geração de pais da sociedade colocou em prática um modelo educacional ineficiente. Acreditou que estava fazendo muito pelos filhos, facilitando a vida deles, quando, na verdade, se omitiu em fazer o básico: educar, colocar limites, transferir valores, formar seres humanos", provoca. Abaixo, uma amostra das constatações e orientações repassadas por Rossandro Klinjey durante a palestra, ontem, no hotel Holliday Inn.
A Crise
"Nós somos de uma geração que pegou a ditadura, as crises econômicas mais profundas. Nós temos famílias muito numerosas e muitos aqui passaram necessidade. Nós sonhávamos com coisas que nós não tínhamos. E esse sonho moveu muitos para um objetivo: mudar de classe social. Ao se tornarem pais, essas pessoas tiveram uma ideia. Essa ideia foi imbuída de profundo amor, mas o resultado não foi bom. A ideia era: meus filhos não vão passar pelo que eu passei. No fundo, isso era a compensação da sua miséria. Foi um conjunto de inversão de valores de uma geração que achava que ia criar os filhos melhor do que os pais educaram. Na verdade, os pais fragilizaram os filhos, mas não foi de propósito. Foi por ignorância, ignorância no sentido de falta de conhecimento do melhor a fazer".
Juventude
"Conseguimos como resultado disso criar a geração mais suicida da história humana, a geração mais depressiva da história humana, a geração mais viciada da história humana, a geração mais drogada da história humana, ou seja, boa intenção não é suficiente para educar almas. É preciso mais que isso".
Educação x Repetição
"Filhos não nascem prontos. Quanto mais cedo você ‘instalar os aplicativos’ melhor e mais resultados você vai ter. Aplicativos, aqui em questão, são as competências cognitivas e emocionais inicialmente instalados pela família e depois pela escola. Os aplicativos são instalados através de um processo exaustivo de repetição. A repetição exaustiva gera uma resposta contraintuitiva. O cérebro da criança é plástico e pronto para aprender, mas é preciso paciência, repetição e perseverança".
Sociedade do excesso
"Criou-se uma geração em que você dá tudo para os filhos e não se dá valor. Nossos pais deixaram claro que tudo o que eles nos deram era fruto de muito esforço. Nós saímos da sociedade de privação para a sociedade de excesso. Mesmo as pessoas que não têm uma renda melhor mimam os filhos. Uma família ganha dois salários mínimos, e mima os filhos, dando a eles o celular de última geração enquanto os pais não têm. Essa situação, esse mimo, criou pessoas com inabilidades emocionais, incapazes de se frustrar".
Vigie seu filho
"Sabe qual a maior queixa que as crianças fazem para pediatras, para psicólogos? ‘Meus pais não me ouvem. Só gritam’! A criança dá muito trabalho porque ela está pedindo para receber ordem. Porque ela quer ser criança e para isso ela tem que ter um adulto dela. Que decida por ela. Que a eduque. Hoje os filhos se trancam nos quartos alegando que precisam de sua privacidade, mas não há privacidade para quem não paga suas próprias contas. Vigie seus filhos. Não perca seus filhos. Assuma seu lugar de pai, de mãe. Vigie. Veja as gavetas, veja o celular. Veja com quem ele fala, quem são os amigos dele. O que ele acessa na internet. Se você não exercer esse papel de olhar, você pode perder seus filhos. Temos que torná-los fortes para o mundo, e para isso é preciso treiná-los, capacitá-los".
Afeto
"Quando você enterra um pai ou uma mãe você não lembra que foi levado para Disney, se ganhou o tênis da moda, o videogame do momento, se seu pai lhe deu esse ou aquele bem material. Você lembra de coisas tão comuns, de gestos. Da mãe cuidando de você quando estava com febre, de um café da manhã especial, de uma sessão da tarde juntos. A gente não lembra de coisas, lembra de gestos. É hora de ter tempo para os filhos. É hora de abrir mão do padrão de vida por padrão de afeto".
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