Um cenário comum para aqueles que convivem com crianças e adolescentes é vê-los usando um celular. Horas acessando plataformas de vídeo como TikTok e Youtube, redes sociais ou jogos online são rotina no lazer de toda a faixa etária infanto juvenil, dos pequenos aos mais velhos. 

Dados da pesquisa TIC Kids Online - Brasil (2018), realizada pelo Comitê Gestor da Internet no Brasil (CGI.br), revelam que 86% das crianças e adolescentes brasileiros, entre 9 e 17 anos, estão conectados, o que corresponde a 24,3 milhões de usuários da internet. Entretanto, para a professora de Psicologia da Estácio, Elaine Eufrásio, o problema não está no uso, mas na quantidade de horas que são gastas em frente às telas. 

“O excesso de tempo de tela pode trazer desde prejuízos para o corpo, na postura, na visão e audição, até irritabilidade, ansiedade e casos de depressão infantil e adolescente, no que é chamado de ‘intoxicação digital’ pela Sociedade Brasileira de Pediatria”, explica a  especialista em Psicopedagogia e em Saúde da Família. 

Junto a isso, a não fiscalização por parte dos pais do conteúdo que está sendo consumido pelos filhos é algo que chama a atenção e requer cuidado. Elaine alerta que a criança e o adolescente que fazem uso indiscriminado da internet pode sofrer também no âmbito social, porque se isola para estar online no mundo virtual, onde pode também estar suscetível a conteúdos inadequados para sua idade e ataques de cyberbullying. 

Os alertas da especialista são confirmados pela pesquisa do CGI.br: segundo o levantamento, 20% dos participantes relataram contato com conteúdos sensíveis sobre alimentação ou sono; 16% com formas de machucar a si mesmo; 14% com fontes que informam sobre modos de cometer suicídio e 11% com experiências com o uso de drogas. 

Além disso, cerca de 26% foram tratados de forma ofensiva (discriminação ou cyberbullying); e 16% relataram acesso às imagens ou vídeos de conteúdo sexual. Outros 25% assumiram não conseguir controlar o tempo de uso, mesmo tentando passar menos tempo na internet.

Entretanto, os cuidados dos pais não devem estar limitados ao uso do smartphone, mas sim, de tudo que está sendo disponibilizado para o entretenimento das crianças e adolescentes. Recentemente, o que tem chamado a atenção dos responsáveis é a última série de sucesso da Netflix, Round 6, em que brincadeiras infantis são usadas como desafios em um jogo de sobrevivência com cenas de violência explícita, tortura psicológica, suicídio e até tráfico de órgãos.

“É algo que tem chegado muito no consultório, e meu questionamento para os pais é ‘como ele teve acesso a isso?’. É preciso que haja uma fiscalização junto à educação através do exemplo. Ao reduzir ou eliminar o tempo de tela durante as refeições, não adianta dizer ‘desligue o celular porque faz mal’, explique o porquê. E isso também precisa partir dos adultos, não tem sentido proibir a criança, se o pai ou a mãe estiverem usando o celular na hora do almoço para trabalhar”, diz Elaine.

Criança tem que brincar

A psicóloga analisa que o longo período usando celular e computador é decorrente da falta de momentos de interação real, porque as telas passaram a substituir momentos de conversa e brincadeiras. “É no momento de brincar que a criança extravasa e trabalha as emoções. E na tela isso não é possível. De forma alguma a tela pode substituir a interação social, momentos com a família e brincadeira, porque isso pode acarretar problemas psíquicos e emocionais”, adverte. 

A pedagoga e coordenadora da Brinquedoteca da Estácio, Bruna Braga, oferece dicas de brincadeiras offline que podem inspirar os adultos a estimular as brincadeiras analógicas. 

“Os pais podem resgatar brincadeiras da própria infância, como pular elástico, jogar bola, brincadeiras com tinta guache, criar histórias a partir da imaginação da criança, por exemplo. Existem muitas coisas que temos dentro de casa que podem ser transformadas: uma caixa de pizza pode virar tela para a criança pintar, materiais recicláveis podem virar personagens, carrinhos, jogos de tabuleiro, e com um caderno e uma caneta dá pra brincar de jogo da velha e adedonha”, exemplifica. 

Pela correria, muitos acabam sem tempo para desenvolver essas atividades, mas Bruna incentiva que a prática vire hábito: “Tirar um tempo para brincar faz toda a diferença, tanto para o aprendizado, porque é nos jogos que a criança aprende lições de sociabilidade, disciplina e raciocínio lógico, quanto para o estreitamento dos laços porque a criança enxerga isso como um momento de carinho e de atenção reservado para ela, e também se torna uma lembrança que vai ser aplicada no futuro”, recomenda a pedagoga.